Serralherias, gráficas, marcenarias, oficinas mecânicas, indústrias de alimentos e canteiros de obra têm algo em comum: máquinas barulhentas funcionando por horas. Quem trabalha nesses ambientes pode perder audição aos poucos, sem perceber, até que a dificuldade para entender conversas se torne evidente. A perda auditiva provocada por exposição prolongada a ruído intenso, que a norma identifica pela sigla PAINPSE, não tem reversão. A boa notícia é que ela pode ser detectada nas fases iniciais.
É para isso que existe a audiometria ocupacional. Este artigo mostra quem deve fazer, em que momentos, como preparar o trabalhador e o que o RH faz com o resultado.
Quem entra no programa de audiometria
A indicação não vem de uma lista fixa de profissões. Ela nasce da avaliação do ambiente: quando o inventário de riscos do PGR aponta exposição a ruído em níveis que exigem controle, o PCMSO deve incluir a audiometria para os trabalhadores expostos, seguindo o anexo da NR-7 dedicado ao tema. O médico do trabalho também pode solicitar o exame em outras situações, por exemplo diante de queixas auditivas ou exposição a produtos químicos que afetam a audição.
Na prática, cada função precisa ser analisada: duas pessoas no mesmo galpão podem ter exposições diferentes, conforme o tempo que passam perto das máquinas.
O calendário que a NR-7 estabelece
Para os expostos a ruído, o exame segue uma sequência definida:
| Momento | Para que serve |
|---|---|
| Na admissão | Criar a linha de base auditiva do trabalhador |
| Seis meses após a admissão | Flagrar mudanças precoces logo no início do contato com o ruído |
| Anualmente a partir daí | Acompanhar a evolução e comparar com o exame de referência |
| Na demissão | Documentar a audição ao final do vínculo, conforme as regras do PCMSO |
O médico do trabalho pode reduzir os intervalos quando houver alteração ou maior risco. Exames de retorno ao trabalho e de mudança de risco também podem incluir audiometria, conforme o caso.
Preparando o trabalhador para o exame
A audiometria mede o limiar auditivo, isto é, o menor volume audível em cada faixa de frequência testada. Se o ouvido estiver cansado pelo barulho recente, o resultado pode mostrar uma perda temporária que não reflete a realidade. Por isso a norma exige um período de repouso auditivo antes do exame, cuja duração é informada no agendamento.
Dica para o RH: agende a audiometria no início do turno ou após folga, e oriente o trabalhador a evitar fones de ouvido em volume alto, shows e ambientes ruidosos antes do exame. Se não houver como evitar o ruído no trabalho, ele deve usar o protetor auricular corretamente até a hora do teste.
Durante o exame, feito em cabine acústica, o trabalhador usa fones e sinaliza sempre que ouve um tom. Antes disso, uma inspeção do conduto auditivo verifica se há excesso de cera ou outro obstáculo que interfira no teste.
O que o resultado pode indicar
O audiograma é comparado com os parâmetros da norma e, principalmente, com o exame de referência do próprio trabalhador. As conclusões mais comuns são:
- Dentro da normalidade: segue o acompanhamento no calendário previsto.
- Sugestivo de perda induzida por ruído: padrão típico de lesão causada pela exposição sonora.
- Desencadeamento ou agravamento: piora significativa em relação ao exame de referência, que exige atenção imediata.
- Alteração não relacionada ao ruído: pode ter outras causas e demandar encaminhamento para avaliação especializada.
Ter perda auditiva não leva automaticamente à inaptidão: a conclusão do ASO depende da função, da exposição e da evolução do quadro, analisadas pelo médico do trabalho.
Da audiometria para o ambiente de trabalho
Quando os exames mostram piora em um grupo de trabalhadores do mesmo setor, o problema provavelmente está no ambiente: protetores inadequados, uso incorreto, manutenção deficiente de máquinas ou níveis de ruído maiores do que o previsto. É aqui que entra o programa de conservação auditiva, que reúne medições, controles de engenharia, escolha e treinamento sobre protetores, e acompanhamento audiométrico em um mesmo plano.
Os dados da audiometria também seguem para o governo dentro do evento S-2220, conforme o Manual de Orientação do eSocial vigente.
Checklist para o RH
- mantenha a lista de expostos a ruído atualizada a partir do PGR;
- controle as datas do exame de seis meses, que é o mais esquecido;
- guarde o exame de referência de cada trabalhador de forma acessível;
- registre a entrega e a troca dos protetores auriculares;
- compartilhe com a segurança do trabalho os setores com mais alterações.
Protetor auricular: aliado, não substituto
O uso de protetor auricular é uma das medidas de controle mais comuns, mas ele só funciona quando é adequado ao nível de ruído, bem ajustado e usado durante toda a exposição. Retirar o protetor por alguns minutos em ambiente muito ruidoso já reduz bastante a proteção ao longo da jornada. Por isso, o fornecimento do EPI não dispensa a audiometria: é ela que mostra se a proteção está, de fato, funcionando para cada trabalhador.
Como a Medicina do Trabalho 4 pode ajudar
Realizamos a audiometria ocupacional em cabine acústica, integrada aos exames ocupacionais e ao ASO e ao PCMSO da sua empresa. Os demais exames complementares da função podem ser feitos na mesma visita, sempre que possível. Para montar o calendário, fale conosco pela página de contato.